Capítulo 1

Vicente

Eu estou dentro do avião voltando para o Brasil. Sei que os meus pais estão ansiosos com a minha chegada, mesmo a minha ida aos Emirados Árabes na tentativa de fechar um negócio milionário ter sido um total fracasso.

Já estou há mais de dez horas nessa droga de avião e apesar de estar na Primeira Classe, meu corpo parece que vai explodir se eu não me exercitar e colocar essa raiva para fora. Se estivesse em casa, com certeza iria correr ou pegar o máximo de peso que eu conseguisse suportar, mas não estou e por isso o tédio e a frustração da derrota parecem me consumir.

Ainda estava absorto em meus pensamentos quando a comissária de bordo entra na minha cabine para me servir o jantar. Confesso que me irritei, pois ela entrou sem se anunciar e eu estava pagando bem caro para ter um pouco de privacidade naquele avião, mas quando levantei os olhos para repreendê-la, reconheci aquele olhar ousado que ela lançava sobre mim.

ㅡ Estela?

ㅡ Pela forma que me olhou, achei até que não tinha me reconhecido ㅡ disse a mulher com cara de decepção.

ㅡ Estava distraído. Achei que era o jantar e não gostei de ser interrompido.

ㅡ Se isso é um problema, não se preocupe, vou resolver agora mesmo.

Estela se virou, tirou um pequeno chaveiro do bolso e com umas das chaves trancou a porta da minha cabine.

ㅡ O que está fazendo? Estou estressado demais para romances.

Era lógico que eu queria a companhia daquela ruiva cheia de curvas. Ela tinha um corpo escultural e seria uma ótima forma de aliviar a minha tensão, em especial, porque já conhecia o gosto maravilhoso dela. Estela era uma velha conhecida e já ficamos algumas vezes. Apesar de nunca oferecer a ela mais do que encontros casuais, ele nunca me rejeitou. A questão é que estou à flor da pele e não sei se iria conseguir ter um mínimo de delicadeza depois que estivéssemos juntos. Quando estou assim, me alivio com mulheres profissionais, que não esperam flores e bombons, apenas o seu pagamento.

ㅡ Nunca te pedi romance. Estou há duas semanas longe de casa, entre um voo e outro, mostre-me se é capaz de me tirar alguns suspiros ㅡ disse enquanto soltava o lenço de seu pescoço e abria os botões superiores de sua camisa, revelando um visual menos formal.

Droga! Ela está me provocando. Espero que não reclame depois por não ter sido um cavalheiro.

ㅡ Se é assim que você quer...

Estela não pensou duas vezes e quando terminou de se ajeitar, Vicente se aproximou e depois de tocar em seu belo rosto, a beijou e os dois se saciaram um do outro.

Apesar da forma rude e quase fria com que estava a tratando, Estela ficou satisfeita com o momento que teve com Vicente, por quem nutria uma paixão secreta.

Após um tempo juntos, Vicente se afasta de Estela e diz:

ㅡ Você já pode ir ㅡ disse Vicente com tom frio.

ㅡ Não ganho nem um beijo?

ㅡ Eu te falei que não estava para romances...

ㅡ Eu sei, estava apenas brincando. Foi um prazer te rever.

Estela deixou a cabine de Vicente, que apesar do momento de prazer, continuava irritado.

Quando Vicente chegou em São Paulo já era madrugada e o seu motorista o aguardava no aeroporto para levá-lo direto para casa, o que era bom, já que não iria precisar encarar os seus pais por mais um tempo por causa do avançar das horas.

Vicente

Eu tive uma noite de sono terrível, mas ficar deitado aqui no quarto não vai me fazer sair dessa situação em que estou.

Assim que me levantei da cama e olhei o nascer do sol, senti uma estranha sensação dominar o meu corpo. Já fazia um tempo que não me lembrava dela, ainda mais desde jeito, com saudades. Eu me odeio por ainda sentir algo por aquela mulher que me traiu.

Acho que isso só está acontecendo porque me deixei abalar com o não que eu recebi no exterior, mas toda essa vitimização acaba agora! Eu vou reagir.

Tomei um banho caprichado e logo me arrumei para ir trabalhar, não podia perder mais um segundo do meu tempo. Aqueles árabes vão se arrepender de terem me rejeitado e em breve estarão comendo nas minhas mãos.

Assim que desci para tomar o meu café da manhã, encontrei os meus pais me esperando à mesa.

ㅡ Querido, que bom que você chegou, sentimos a sua falta.

ㅡ Eu também senti a sua falta ㅡ disse à minha mãe, mas não sem estranhar o silêncio que vinha do meu pai.

Como o Senhor João Lima, vulgo meu pai, não disse nada, comecei a comer, já que estava com bastante fome, visto que a Estela estragou o meu momento de jantar ontem. Porém, eu sabia que aquele silêncio era temporário e em cinco minutos o meu pai falou:

ㅡ Eu também estou feliz em te ter de volta, mas não estou nem um pouco satisfeito em saber que você vai trabalhar hoje. Nós três sabemos que você não lida bem com frustrações, e pelo bem dos nossos funcionários, acho que você deveria ficar em casa o resto da semana.

ㅡ Eu não acredito que eu estou ouvindo isso. Quem você pensa que eu sou, um louco? Acha que vou fazer o quê? Agarrar no pescoço dos seus preciosos e incompetentes funcionários? Por favor, me poupe!

ㅡ Filho, seu pai só está te preservando de aborrecimentos evitáveis, não sei se você se lembra, mas sua secretária se demitiu alguns dias antes de você viajar e agora terá que lidar com uma que é nova e inexperiente no trabalho. Deixe-nos treiná-la primeiro.

ㅡ Eu posso lidar com uma bobeira dessa, se é só isso que vocês têm a falar, me dêem licença que tenho muito trabalho a fazer.

Eu sei que os meus pais ficaram apreensivos, mas eu me senti humilhado com toda aquela conversa. Nos anos que estou a frente da empresa, quase tripliquei os lucros dela, além de tê-la posicionado como uma das melhores do continente, não gosto de ser tratado como uma criança mimada, apesar deles terem razão: detesto lidar com iniciantes, espero que essa secretária não me dê trabalho, senão eu a demitirei sem piedade.

Acelerei o meu carro e em pouco tempo estava na empresa. Percebi os olhares dos funcionários me seguindo quando cheguei, afinal, sempre exijo que eles sejam os melhores e eu estava chegando após um fracasso, imagino que eles devem ficar fofocando sobre isso o dia todo, mas eu não ligo e continuo o meu caminho.

Assim que chego à porta da minha sala e giro a maçaneta, esbarro em uma mulher que estava saindo de lá com um copo de café na mão e entorna tudo em mim.

ㅡ Droga! Sua imbecil! Você não olha por onde anda?

Sei que foi um acidente, mas ela deveria ter prestado mais atenção. Só não a demito agora mesmo porque não quero dar razão aos meus pais, mas assim que tiver oportunidade tirarei essa mulher de perto de mim.

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