Minha Cura
Minha Cura
Por: Ellen Souza
Prólogo

Talvez se eu começasse com uma "linda manhã onde eu acordaria com a luz do sol no meu rosto porque esqueci de fechar a janela ontem a noite", a minha história poderia parecer um pouco menos caótica. Mas a verdade é que, a minha realidade estava longe de ser menos. Tudo nela era "mais", e o universo não me poupava da intensidade dos acontecimentos.

Tudo começou quando o meu irmão foi encontrado morto numa das valas mais fundas da comunidade. Sem camisa, descalço, e com um tiro certeiro na cabeça. Essa foi a cena que eu presenciei quando precisei ir até lá para a minha ficha cair.

Na época, eu ainda fazia o ensino médio e nem sonhava em fazer faculdade. Mas aí o meu irmão apareceu com um panfleto de uma universidade que estava abrindo um programa para bolsistas e insistiu que eu participasse da seleção porque não queria que eu acabasse como ele.

Naquele dia, eu não havia entendido o que ele queria dizer. Mas a resposta veio logo depois das suas saídas durante a madrugada, do dinheiro surgindo como água, os presentes para mim e para a nossa mãe que ele trazia com frequência, as roupas novas e caras, e todo o material do meu curso na faculdade que era a única coisa que não fazia parte do programa e ele havia bancado todo o valor, fazendo uma surpresa para mim, logo depois de saber que eu fui aprovada.

Do dia para a noite, nós estávamos vivendo em boas condições, e o que eu já sabia, e a nossa mãe não queria enxergar, mas estava bem evidente: o meu irmão havia entrado para o crime. Ele queria um futuro para mim, porque ele já não tinha mais um. E eu fiz isso por ele.

No começo a nossa mãe não aceitou muito bem a história dele ter virado traficante, mas, qual mãe iria aceitar isso?! Eu também não estava bem com isso, mas ele parecia estar feliz fazendo o que nosso pai não fez. Cuidar da casa e das nossas necessidades, e ainda comparecer com o amor e o carinho que o marmanjo que nos colocou no mundo deixou de dar no dia em que saiu para o bar e nunca mais voltou. Ele estava sendo o homem da casa e o pai que eu nunca tive, e isso me fez perdoar o fato dele ter virado um soldado do morro.

E mesmo sendo o oposto de um herói comum, ele era o meu herói preferido. Bom, até ele nos abandonar sem muitas explicações, como o nosso genitor havia feito.

Semanas se passaram e nada. O Jonathan não respondia às minhas mensagens, não atendia as minhas ligações, e nem as ligações da nossa tia, a Katiane. E os meninos também não sabiam dele. Mas eu ainda tinha esperanças de encontrá-lo, ainda que morto, eu só queria o corpo para um enterro digno.

E foi isso o que eu encontrei, o seu corpo sem vida, jogado em uma vala qualquer como um lixo.

Eu queria entender o motivo. Queria saber o porque fizeram isso com ele, porque tudo parecia absurdo demais. Mas a única resposta que eu consegui foi que ele estava roubando do lucro da boca, o que não tinha me convencido, porque mesmo sendo bandido ele ainda era um cara honesto. E os dias em que ele havia sumido não batiam com as histórias que me contaram. Nada justificava, e isso me deixou com um vazio por dentro. Não só por ter perdido o primeiro homem da minha vida, mas por saber que estavam mentindo para mim.

Com a morte dele, eu e a mãe tivemos que nos virar para dar conta de tudo. Ela voltou a trabalhar em casa de família no asfalto e eu continuei estudando, e quando consegui, comecei a trabalhar meio período em um mercadinho próximo a comunidade. Não era lá grande coisa, mas estava dando para cobrir as passagens para a faculdade e alguns materiais que eu estava precisando.

Mas aí veio a pandemia, e como eu disse, o universo não era lá o meu grande fã, e eu acabei sendo dispensada como tantos outros, e com a minha mãe não foi diferente. Mas com o pouco que recebemos pelo tempo de trabalho, conseguimos passar alguns meses bem.

Mas com o tempo que passamos em casa durante a pandemia, no fim da quarentena, descobri que minha mãe estava com diabetes tipo 1 e que precisavamos fazer o uso da insulina e de outros remédios antidiabéticos, e isso custou boa parte do dinheiro que tínhamos guardado, já que o que recebíamos no postinho não era o suficiente.

Tudo que tínhamos estava se esvaindo aos poucos, ao ponto de passarmos necessidades. E tudo piorou quando crise durante a pandemia forçou a faculdade a ter que cortar gastos, e isso contou com o programa da minha bolsa no curso de enfermagem. O baque veio quando a reitora disse que eu teria que pagar todas as mensalidades do curso, desde o início do meu primeiro ano se eu quisesse continuar estudando na instituição, já que faltava tão pouco para eu concluir.

E eu poderia ter desistido, trancado o curso, voltado a viver a minha realidade e procurar novamente um emprego digno... mas em um ato insano, eu tomei a mesma decisão que o meu irmão tomou a alguns anos atrás.

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