MecânicoO barulho das ferramentas e o cheiro de óleo queimado sempre fizeram parte da minha rotina. Trabalhar com carros era algo que eu dominava com perfeição. Ninguém naquela cidade conhecia os motores como eu. E foi exatamente por isso que Augusto me procurou. Não sou de me envolver com sujeira, mas o valor que ele me ofereceu... bom, digamos que qualquer um pensaria duas vezes antes de recusar.A oficina estava mais vazia do que o habitual quando Alexandre apareceu. Sempre educado, confiante, daquele tipo de homem que está acostumado a ter tudo aos seus pés. Ele me entregou a chave, trocamos algumas palavras sobre a manutenção, e ele confiou o carro a mim como se fosse um serviço qualquer. Mas não era. Não para mim. Não desta vez.Esperei ele se afastar completamente da oficina antes de pegar meu celular. Me afastei para os fundos, onde a barulheira era menor, e disquei o número de Augusto. Ele atendeu no segundo toque.— Fala.— Ele acabou de deixar o carro. Vou fazer o serviço
AlexandreDepois de resolver algumas pendências no escritório e responder algumas ligações importantes, olhei o relógio e percebi que já estava na hora de buscar o carro na oficina. Zeca havia me garantido que a revisão estaria pronta naquele horário. Peguei o celular e digitei uma mensagem para Lara:"Vou buscar o carro, amor. Já passo aí pra te pegar."Ela demorou alguns minutos para responder. Quando o celular vibrou com a notificação, esperava um coraçãozinho ou um "ok, meu amor", mas o que vi foi totalmente diferente:"Não vai. Por favor. Estou com um pressentimento horrível."Franzi a testa. Liguei na mesma hora.— Lara? O que houve? — perguntei, sentindo o coração acelerar.— Amor, por favor, não vai. Não sei explicar... eu estou me sentindo mal, muito mal. Vem me ver. Eu preciso de você aqui. — A voz dela estava embargada, como se estivesse segurando o choro.— Calma, eu já estou indo. Não vou buscar carro nenhum agora. Me espera.Desliguei o telefone e fui direto para a casa
AlexandreO quarto do hospital estava silencioso, apenas o som do monitor cardíaco marcando o ritmo constante dos batimentos de Lara. Ela dormia, enfim tranquila depois da medicação leve que a médica recomendara para a crise de ansiedade. Eu estava sentado ao lado da cama, segurando sua mão, tentando me manter sereno.Apesar da tranquilidade momentânea, algo dentro de mim estava inquieto. Fazia mais de duas horas desde que mandei o motorista buscar o carro na oficina. Ele disse que era perto e que logo estaria de volta, mas até agora... nada.Peguei o celular e tentei ligar para ele. Primeira chamada: sem resposta. Segunda: direto na caixa postal. Franzi o cenho, sentindo um calafrio estranho na espinha.Respirei fundo, tentando não deixar a ansiedade de Lara me contaminar. Talvez tivesse se atrasado no caminho, talvez estivesse no trânsito, talvez estivesse...O controle remoto da televisão estava sobre a mesinha. Liguei a TV apenas para espairecer um pouco e talvez distrair minha me
AlexandreAinda estava sentado ao lado da cama de Lara, segurando sua mão com força, tentando disfarçar o tremor que insistia em subir pelos meus dedos, quando meu celular tocou. Olhei para a tela e vi um número desconhecido. Atendi imediatamente, esperando qualquer notícia do motorista.— Senhor Alexandre Costa? — disse uma voz masculina, firme e profissional.— Sim, sou eu. Quem fala?— Aqui é o delegado Barreto, da 3ª DP do Rio de Janeiro. Precisamos que o senhor compareça com urgência à delegacia. Trata-se de um assunto relacionado ao acidente envolvendo seu carro.Senti o coração acelerar ainda mais.— O motorista está bem? O que aconteceu?— O senhor será informado de tudo pessoalmente. Mas posso adiantar que há indícios de que o acidente não foi exatamente... um acidente. Precisamos conversar com o senhor com urgência.Meus olhos encontraram os de Lara. Ela estava mais calma, mas ainda assustada. Respirei fundo.— Tudo bem. Estou indo agora.Desliguei e, em seguida, liguei para
AugustoEstava sentado na varanda da nossa casa, com uma taça de vinho na mão, esperando a notícia chegar. A noite estava tranquila, silenciosa, como se o universo finalmente tivesse entendido que era hora de me dar o que eu queria. Alexandre morto. Finalmente fora do meu caminho.Luiza apareceu na porta com o celular na mão, o rosto iluminado pela luz da tela. Sorriu.— Já começaram a noticiar, amor. Acidente na Avenida Atlântica. O carro dele ficou destruído.Dei um longo gole no vinho, sentindo o gosto da vitória. O plano tinha sido perfeito. Simples, direto, e sem rastros. Um acidente de carro. Quem desconfiaria?— Finalmente, Luiza. A empresa vai estar nas nossas mãos em menos de uma semana.Ela se aproximou, sentando-se ao meu lado.— Você foi genial. Cortar os freios... é simples, mas eficaz. E ninguém vai suspeitar.Assenti, satisfeito.O celular vibrou. Era um dos meus homens. Atendi com a calma de quem já sabia a resposta.— Diga.— Chefe... temos um problema.Meu coração de
LaraEu nunca imaginei que, aos 23 anos, a vida me faria carregar o peso de uma responsabilidade tão grande. Quando os pais morreram, o mundo, de repente, se transformou em uma espécie de pesadelo do qual não havia como acordar. Eles partiram em um acidente de carro, e, embora eu tenha tentado me preparar para a dor, nada poderia me preparar para o vazio que se formou no lugar onde antes existia uma família.Eu não tinha noção do quanto minha vida mudaria em um único segundo. Um telefonema. Uma ligação para informar que tudo o que eu conhecia, tudo o que me dava segurança, tinha acabado. O impacto do acidente foi tão forte que, quando eu vi o carro amassado nas imagens do noticiário, nem parecia possível que eles haviam estado ali. A imagem ficou gravada na minha mente, como se ainda estivesse vendo tudo em câmera lenta. Não havia mais dúvidas, não havia mais pais. Eu estava sozinha.Mas não completamente. Meus irmãos estavam comigo. Thiago, com 11 anos, e Júlia, com 14, estavam tão p
Alexandre Sou Alexandre Costa, CEO da Costa Empreendimentos, uma das maiores corporações do Brasil. Fui treinado desde jovem para assumir o controle da empresa, e aos 28 anos, quando meu pai se aposentou, fui colocado à frente de tudo. Mas desde então, a realidade de estar no comando não é tão simples quanto parecia. As pressões são intensas, e não se resumem apenas aos negócios. Há também uma batalha constante pela autoridade dentro da família. Meu pai, sempre tão firme e decidido, sempre me disse que a herança da Costa Empreendimentos não seria um presente, mas uma responsabilidade. E, de certa forma, ele estava certo. A cada dia, o peso dessa responsabilidade aumenta. Não é só minha imagem que está em jogo, mas a imagem da família, da empresa, e de todos que dela dependem. O problema atual é o meu cunhado, Marcelo. Ele casou-se com minha irmã, Clarice, e desde o começo, seus interesses sempre foram claros: ele possui uma grande parte das ações da Costa Empreendimentos, e como
LaraQuando a campainha tocou, eu estava no meio de um caos em casa. Meu irmão mais novo, Thiago, estava assistindo televisão com o volume no máximo, enquanto minha avó tentava se aconchegar na poltrona, como se isso fosse ajudá-la com a dor nas costas que a incomodava tanto. Júlia, estava no sofá, desenhando em um caderno, tentando se distrair da bagunça ao redor. A casa estava desorganizada, com brinquedos espalhados pelo chão e roupas por todo canto — e, por mais que eu me esforçasse para dar conta de tudo, não parecia que conseguiria controlar nem o básico.Eu precisava de mais tempo. Mas, ao abrir a porta, me deparei com um homem bem arrumado, de terno, com uma postura rígida e uma expressão que não mostrava nem um sinal de emoção. O que ele queria comigo? Eu mal sabia quem ele era, mas seu ar formal me deixou imediatamente desconfiada.“Boa tarde,” ele disse, com um tom de voz que soava ensaiado, como se estivesse acostumado a dar ordens. “Sou Eduardo Ribeiro, trabalho com Alexa