Buenovel

Baixe o livro no aplicativo

Download
3 - HOMENS

— Conquistar seria até um prazer comum conosco, se os hábitos deles não fossem tão fúteis. Tentam conquistar tudo que lhes é possível. Demarcam terras e se declararem donos delas. Nessas terras cultivam plantações de todos os tamanhos e tipos de vegetais, criam animais domesticáveis, constroem várias tocas de pedra, argila e madeira de todos os tipos e tamanhos. Às terras usadas para cultivo e criação de animais, alguns chamam de fazendas, outros de feudos. Pouco importa a diferença. Às terras onde constroem o maior número de tocas, chamam de cidades ou vilas dependendo do tamanho da aglomeração. Algumas construções são usadas para comercializar o que é produzido nas fazendas, outras são usadas para moradia. Nas cidades maiores sempre há um grande edifício que chamam “castelo”, onde mora alguém importante para eles ou muito rico cercado de inúmeros vassalos, empregados ou escravos. Usam tudo que encontram pela frente como insumo de sua futilidade. Constroem grandes edificações, máquinas de guerra e atacam todos que se opõem à vontade deles, chegando ao absurdo de fazerem grandes guerras até entre si. Devastam enormes áreas de mata virgem para transformar em outro tipo de plantação que queiram; agrupam animais domesticáveis, fazendo-os reproduzirem-se mais rápido, crescer e engordar mais rápido para abatê-los e comercializá-los como alimento. Abrem minerações para garimpar minerais preciosos e não preciosos ou pedreiras tirando tudo o que julgam útil e comercializável da terra e da rocha, deixando para trás um rastro de erosão e fissuras imprestáveis. Um rastro de destruição desnecessária, descabida e desenfreada. Não dão conta ou não têm inteligência suficiente para aproveitar tudo o que extraem apenas para própria subsistência, mesmo depois de comercializar, então jogam fora o que sobra. O resultado é um enorme desperdício de recursos. Degradam nosso mundo com a poluição das águas e terras. Recentemente até mesmo o ar tem sofrido. Se essa devastação desenfreada continuar, em alguns séculos nossos recursos naturais se esgotarão. Não preciso dizer que é inadmissível que seres inferiores dominem nossas preciosidades dessa forma. Além de tudo isso, como se já não bastasse, essas criaturinhas infames chegaram ao intolerável absurdo de sonhar — frisou a palavra — que podem chegar aos nossos pés! E maior absurdo ainda: sonhar — frisou mais uma vez — que podem nos dominar!

Ao concluir a frase o Mestre soltou fumaça pelas narinas lembrando de algo que o irritou. Em princípio não entendi por que tanta preocupação e irritação com uma raça inferior, mas então ele prosseguiu.

— Esses “homens”, diferem em vários aspectos dos elfos e dos anões, que cito tanto, por serem as referências de comparação mais próximas que temos. Eles se reproduzem a uma velocidade alucinante, chegando um casal a gerar uma prole de, às vezes, mais de dez indivíduos. Há casos em que um macho fecunda várias fêmeas durante toda a vida, podendo gerar dezenas de filhotes que, por sua vez, atingem a idade reprodutiva em pouco mais de uma década. Têm comportamento egoísta, são desorganizados socialmente e cada qual quer a todo custo ser mais poderoso do que o outro, ter mais posses do que o outro, ser mais notório do que o outro. Um fator que ameniza essa situação é que vivem pouco, em geral, não mais que seis ou sete décadas. E ameniza pouco porque ao morrerem, deixam herdeiros que continuam os trabalhos, dando sequência assim ao ciclo de descabimento que promovem. Para agravar a situação, essa praga, dentro de sua desorganizada hierarquia social, gera indivíduos muito versáteis. Fazem de tudo: mineram tão bem quanto os anões, cultivam terras, constroem, produzem todo tipo de material, inventam todo tipo de máquina para todo tipo de fim, utilizando-se de indivíduos que trabalham em pesquisas de novas coisas as mais variadas possíveis. Para acelerar e baratear os trabalhos mais pesados, escravizam indivíduos que capturam em batalha, inclusive os da própria espécie! Assim, depois de se multiplicarem, atingiram uma população enorme!

Após uma pequena pausa, respirou fundo e continuou:

— Então um dos grandes e ricos entre eles, juntou em torno de si, vastas quantidades de terras e fundou o primeiro do que eles chamam de reino. Um reino é uma tentativa de organizar a população que vive em um território sob um mesmo esquema de regras que todos devem seguir. É óbvio que não dá certo, mas eles insistem e sempre que algum cidadão “infringe a lei” — enfatizou debochando — ele é penalizado e na maioria das vezes com a morte. Sempre que algo não sai como gostariam, inventam uma guerra ou dentro de seu próprio território ou contra outro território. Seres estúpidos! Há vinte e nove décadas repetindo os mesmos erros e ainda não perceberam que os resultados são sempre os mesmos! E isso depois que chegaram ao Nosso Planeta, o que sugere que já tinham tais costumes desde sempre! 

— Mestre, mas por que ainda não varremos essa praga da face de Nosso Planeta?

Soltando fumaça pelas narinas, mas desta vez mais como um suspiro de tédio, sugerindo que havia muita coisa a contar ainda, o Mestre respondeu:

— Vou chegar lá, Dryfr, apenas ouve. Eles não conheciam magia o que sugere ser o nível de mana do planeta natal deles muito baixo, impossibilitando o domínio da magia. Com o tempo, os tais pesquisadores, sábios entre eles, perceberam que o nível de mana do nosso mundo permite a qualquer ser de baixa inteligência, como eles, aprender magia. Aí nossos problemas começaram de verdade. Como têm vida curta, são obrigados a aprender mais rápido que outras raças mais longevas, portanto construíram o que chamam de escolas de magia. Edificações destinadas a abrigar os mais sábios entre eles, para que ensinem magia aos discípulos e para que deixem informações acumuladas em bibliotecas. Um indivíduo começa suas pesquisas a partir de onde outro parou, valendo-se destes escritos que na prática servem para transmitir os estudos, pesquisas e experiências já realizados, para as gerações futuras. Para possibilitar isso, cada pesquisador produz volumosos escritos, documentando tudo. Isso gerou magos poderosos, alguns chegando inacreditavelmente até mesmo aos nossos pés. Ainda bem que eles não são tão inteligentes a ponto de produzir magia dinâmica. O que eles conseguiram até hoje, foram alguns efeitos a partir de experiências anotadas. Assim, as gerações seguintes seguem as receitas para produzirem os efeitos descritos e, vez ou outra, arriscam modificar as fórmulas. Aqueles que continuam pesquisando e descobrindo novas receitinhas são poucos, mas os mais inteligentes entre eles.

Então fez mais uma pequena pausa, mas logo continuou.

— Como é de praxe entre eles, passaram a usar a magia para a guerra. As guerras desencadeadas por eles, fazem sua tecnologia evoluir rápido, pois nessas situações inventam meios de transpor qualquer barreira que se ponha entre eles e seus objetivos. Com a magia não foi diferente. Suas guerras destruíram uma infinidade de outras espécies, tomando tudo que lhes pertencia e formando novas colônias de homens. Espalharam-se por todo o Nosso Planeta, chegando até terras distantes e desligadas do continente por meio de grandes embarcações. Não barcos, como os que conhecíamos, de outros seres, mas sim grandes galeões que poderiam abrigar alguns de nós de uma só vez! Suas guerras são muito violentas, principalmente quando travadas entre si, pois, quando é o caso, o lado conquistado tem os indivíduos machos mortos ou escravizados, com exceção dos ricos que têm a as famílias extorquidas para devolvê-los sob pagamento de vultuosos resgates. As crianças quase sempre são poupadas, todavia nesse caso é comum tornarem-se escravos para a vida toda. Às mulheres é reservado um destino bem peculiar: os machos conquistadores copulam com elas à força e agridem aquelas que oferecem resistência. Em geral depois disso, são mortas ou levadas para que continuem a ser violentadas, no caso das mais atraentes para eles.

Eu, pasmo diante das últimas revelações, comecei a desprezá-los. Então, o Mestre continuou e meu desprezo cresceu mais rápido do que eles próprios se multiplicam.

— Isso é uma descrição genérica do que aconteceu em tua ausência, Dryfr. Existem variações de acordo com cada cultura, é claro, mas todas igualmente desprezíveis. O que interessa agora é que existem fatos ainda mais graves. Como essa praga cresceu muito e muito rápido, foi inevitável nosso primeiro contato com eles. É claro que eles tomaram conhecimento de nossa existência muito depois que nós tomamos deles. Era de se esperar que nunca tivessem visto nenhum ser parecido conosco, mas não foi bem assim. A primeira vez que um deles viu um Draco foi quando um de nossos jovens, um desatento Vermelho chamado Fyr, filho da sábia Wkyf, atacou alguns bovinos para se alimentar. Ele não sabia que esses bois faziam parte de uma fazenda de criação de gado dos homens e também não percebeu que perto dele, um casal de humanos copulava escondido no mato. Saíram nus, aos berros, ao perceberem o jovem Vermelho devorando o gado no pasto. Ele ficou surpreso com aquilo, seu olfato embriagado com o aroma da carne fresca ainda morna, fê-lo pensar estar sozinho com o desjejum. O mais interessante, porém, foi o relato que nos fez das palavras que aqueles humanos proferiram aos gritos. Em voz alta repetiram coisas como “o demônio”,  “castigo por nossos pecados” ou “satanás nos persegue” e coisas do tipo. Então começaram a chamar por um “deus” e um outro tal de “Jesus Cristo” para ajudá-los repetindo uma espécie de mantra. O jovem Vermelho disse que não se conteve e desmanchou-se ao chão, rolando às gargalhadas.

Então, o próprio Mestre deu uma grave risada ao que não pude me conter e ri junto.

— Pobres criaturas tolas! — continuou. — Não sabem que nada nem ninguém poderia ajudá-los se o jovem Vermelho estivesse interessado neles. Bem, depois desse relato passamos a observá-los mais de perto. Estudamos e hoje sabemos tudo a respeito deles. Ou quase tudo. Aquele casal, por exemplo, saiu gritando e proferindo aquelas palavras por causa de uma coisa a que eles chamam “religião”.

E, sem dar atenção para minha expressão de curiosidade, o Mestre continuou no mesmo fôlego.

— Existem várias religiões, mas a daqueles jovens humanos em específico era a “religião cristã” como eles chamam. Religiões são parecidas com seitas: vários indivíduos se reúnem em um lugar sagrado ao comando de um sacerdote, para reverenciar algo. O mais curioso disso é que seus lugares sagrados são construídos por eles mesmos, e os sacerdotes são praticamente eleitos por eles mesmos. Nessa religião eles adoram um “deus” sem nome que dizem ser o único deus onipresente, onipotente e onisciente, criador de tudo. Pelo menos, é considerado sem nome para muitos. Alguns o chamam Jeová. Existe também uma figura chamada Jesus Cristo, que mais tarde, confirmamos ser aquele a quem os dois jovens chamavam. Em um livro que eles chamam de sagrado, mais especificamente “A Bíblia Sagrada” está escrito, entre outras coisas, que esse tal “Jesus” é “o messias”, profeta que veio à Terra para salvar os homens de seus “pecados”. Por certo, uma lenda do planeta natal deles. Pecados, no caso, seriam as coisas que o “deus” deles não gostaria que fizessem. No tal livro diz também que o tal Jesus é “o filho de Deus” e tem também lá uma série de códigos de conduta dos humanos. Algumas seitas cristãs ainda consideram que Jesus é o próprio “Deus”. A bíblia também é chamada por alguns de “A Palavra de Deus” e todo cristão deveria seguir o que está escrito nela, mas o fato é que muito poucos sequer a leram alguma vez. Aliás, a maioria deles também sequer sabe ler, tornando-se fantoches nas mãos de clérigos, padres, bispos e outros títulos de hierarquia dentro da religião, gananciosos que se autointitulam portadores da salvação. Costumes tolos para uma espécie tola que não pratica nem mesmo aquilo em que acredita. Ou diz que acredita. O que poderia se esperar deles, não é?

Depois de tomar fôlego o Mestre continuou sem dar-me chances de indagar qualquer coisa.

— Mais ao sul existem outros povos de homens que falam outras línguas e têm outras religiões. Vou citar apenas a outra religião mais numerosa dos humanos em Nosso Planeta hoje: o islamismo. A religião em si é muito parecida com o cristianismo, pois acredita no mesmo deus, que na língua deles é chamado “Alá”, ou algo assim, não importa. Também têm um livro sagrado que chamam “Alcorão” e um profeta chamado “Maomé”, como Jesus, só que não é tido como filho de “Alá” e sim apenas como “O Profeta”. As histórias de Jesus e Maomé são bem diferentes, mas os livros sagrados têm conteúdos semelhantes, códigos de conduta e outras coisas fúteis aplicáveis apenas a seres inferiores. Há ainda um reino formado há poucas décadas que é dominado por povos pagãos. Os cristãos os chamam de “hereges” e os consideram inimigos mortais. E eles são mortais de fato. Os mais violentos, sanguinolentos e brutais humanos. São a escória da escória. A boa notícia é que não se dedicam à magia, pois sua inteligência é ainda mais precária do que a dos outros humanos.

Então o Mestre fez uma pausa maior do que as anteriores, suspirou e disse:

— Historinhas de seitas de seres inferiores me cansam. Portanto, vou logo para o motivo pelo qual te conto tudo isso. Nos livros sagrados deles também é descrito um lugar chamado “Inferno”. Esse lugar, se é que existe, certamente é outro plano de existência do multiverso, governado por alguém chamado “Satanás”, “Diabo”, “Demônio”, “Lúcifer” ou ainda “Belzebu” e outros nomes. Alguns dizem se tratar da mesma criatura, outros dizem serem criaturas distintas, mas isso, dentre outras futilidades, não importa. O que importa é que o nosso jovem Vermelho faminto, parece se assemelhar com essa, ou alguma dessas criaturas fantásticas, ou com algumas das criaturas que vivem nesse tal de inferno. As semelhanças seriam a cor avermelhada, os chifres, asas, dentes e a aparência, que para os humanos não é muito agradável. Por isso a histeria daquele casal de humanos ao ver nosso discípulo com os dentes ensanguentados, dilacerando a carne fresca do gado. Ainda mais porque naquele momento estavam “cometendo o pecado” de copular fora do que eles chamam de “casamento” que seria a união de um macho e uma fêmea diante dos olhos de seu deus. União que deveria durar para o resto da vida dos casados que juram fidelidade um ao outro diante desse deus — concluiu com uma grave gargalhada zombeteira.

Próximo Capítulo