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OS DEUSES SE MOSTRAM

E o vento se tornou tormenta e, de claro, o mundo se toldou. A quem iremos culpar por nossas desventuras?

De joelhos sobre a plataforma o jovem sacerdote anunciou a todos as revelações que tivera ao encarar o espaço do portal, dizendo que os deuses estavam avaliando abrir um caminho direto até seus fiéis.

Alguns, tomados de devoção, juntaram as mãos e, em lágrimas, se espremeram aos pés do jovem sacerdote.

Debaixo de uma cantiga poderosa e estranha que o sacerdote e seis acólitos que havia ordenado entoavam com ardor, os habitantes restantes foram se juntando à frente da porta, apesar da grande maioria ainda procurar guardar uma cuidadosa distância. Os seres se ajoelharam, sentando-se sobre os calcanhares, os olhos curiosos e admirados postados no sacerdote.

Sob orientação de Trevas e Escuridão, que promoviam através do jovem sacerdote pequenos prodígios na porta do sol, as pessoas e os homens foram instados a abrirem seus corações aos deuses manifestos, para que os deuses, vendo a pureza e a fé de que eram possuídos, pudessem se decidir a se manifestarem abertamente. Os cânticos aumentaram em tom e lamurias apaixonadas.

Não passou muito tempo e logo surgiu, enchendo todo o imenso retângulo vazio do portal, uma paisagem cinzenta e abandonada que se via pelos rasgos da neblina passante, de onde se podia ouvir apenas um sussurro de um vento solidão. As pessoas se assustaram com aquela visão e recuaram receosas. A maioria se foi e abandonou a cidade, restando apenas vinte seres, que eram os de corações mais crentes.

Em meio às colunas que delimitavam o portal a paisagem parecia ondular, se mover, mudar de forma, como quando se olha algo dentro da água.

Tomados de intensa admiração religiosa os seres se ficaram abobalhados observando o que tomava forma e nitidez do outro lado. Nos rasgos da neblina o que era cinza se enchia vagarosamente de luzes e cores.

Alguns poucos, os mais curiosos, com sorrisos admirados pregados no rosto se moveram respeitosamente e deram a volta para olhar o portal por trás, e viram que de lá a visão do estranho mundo era a mesma que tinham pela frente. A visão daquele mundo independia de que lado estivessem do portal. Satisfeitos voltaram para o meio dos outros e contaram, tomados de furor religioso, o que tinham visto, e todos se alegraram pelo poder que estavam presenciando, afoitos pelos deuses que, como prometido, logo se mostrariam.

Como uma onda mansa foram se se aquietando, olhos vagos e adoradores, sorrisos pendurando-se nos rostos como crianças numa matinê. Afinal, era uma bela visão, um prodígio, na qual lhes era permitido imergir pela cantilena suave e ritmada que o sacerdote entoava de forma totalmente abandonada.

As pessoas e homens se espremeram um pouco mais para perto do portal, se acotovelando e mal respirando, os olhos e almas presos na paisagem que ia se tornando cada vez mais nítida.

Não demorou e o vento se intensificou um pouco mais, raleando a névoa brilhante além do outro lado do grande retângulo. As respirações ficaram suspensas, os olhos estatelados, não desejando perder nem por um segundo que fosse a possibilidade das maravilhosas revelações prometidas.

No ralear da névoa o que estava meio acinzentado se mostrou definitivamente cheio de luzes e cores. Devagar foram surgindo montanhas verdes e altaneiras coroadas de branco sob um céu de um azul tão intenso como nunca tinham visto, enquanto no vale logo abaixo o brilho de mercúrio de inúmeros rios brilhava intensamente sob o sol.

Um oh maravilhado saiu dos seres que ficaram se perguntando se aquele era o paraíso. Suas mentes se abriram totalmente e acreditaram no que ouviam, nos sons que vinham, nas imagens que viam, nas vozes gentis e amorosas que flutuavam em suas mentes.

Então eles surgiram!

Muitos mantos brancos e neblinas alvas destacadas agora flutuavam magicamente no ar bem em frente à janela aberta no portal.

Sob os olhos admirados uma passarela se desdobrou na parte interna do portal sobre o incomensurável vazio, parando bem à frente das formas deificadas.

Eram cinco deuses, cinco mantos brancos e uma névoa, que pareciam aguardar que atendessem o convite que ressoava gentil em suas mentes, para que atravessassem o portal e se postaram à frente dos deuses.

Uma pessoa gigante de olhar determinado se levantou e se adiantou. Com os olhos apaixonados se virou lentamente de costas para o portal e, feliz, encarou todos os que ali estavam.

O sacerdote e os acólitos ficaram em silencio, olhando com carinho para o gigante.

Confiante, com um largo sorriso virou-se e subiu os degraus volumosos, parando na frente do portal, encarando com amor a terra dos deuses. Fechando os olhos deu um passo para a imagem da passarela do outro lado do pórtico, avançando pelo vão. Uma exclamação maravilhada revoou das pessoas que assistiam, ao ver o gigante atravessando o portal e entrando no mundo dos deuses. Um pequeno arrepio, um mal-estar e uma fraqueza foi o que o gigante sentiu, mas que logo passaram.

Como se estivesse cansado levantou os olhos e sorriu.

A respiração de todos estava suspensa, juntamente com os olhos brilhantes e maravilhados. O sacerdote aguardava em silêncio, perdido num misto de entrega e adoração.

O gigante estava parado na entrada do novo mundo. Com lentidão varreu os olhos pelo colorido vazio que se estendia abaixo da plataforma e foi elevando os olhos para as montanhas e horizontes distantes, até que sua atenção, repleta de adoração e profundo respeito, se fixou nos deuses, entregando-se completamente aos sussurros cheios de paz e carinho que inundavam com suavidade todo seu ser.

Então, maravilhado e confiante, virou o rosto para os outros, que riram e bateram palmas. Tomados de coragem e amor, em silenciosa e radiante procissão, subiram os degraus e, após uma pequena pausa reverente, foram trespassando o portal, juntando-se ao gigante do outro lado. Os que passavam pelo portal sentiam aquele cansaço e fraqueza estranhos, mas sorriam, enlevados na presença dos deuses.

O gigante, com o coração pulsando de admiração e enlevo voltou-se definitivamente para os deuses.

- Venham... – ouviram o magnífico coro chamando-os, pedindo para se aproximarem mais da borda do imenso precipício à frente da plataforma.

- Venham... – ouviram todos, o coro de vozes ternas dos deuses.

Com passos firmes e respeitosos, atendendo ao chamado dos deuses, o gigante caminhou pela ponte que terminava acima do terrível vazio, seguido de perto por uma procissão de seres em estado de profundo êxtase, que foram se ajuntando em estado de adoração. Devagar e reverentemente caminharam. Com os corações enlevados pararam bem à frente dos deuses que os aguardavam, flutuando pacientemente no incomensurável espaço.

Do outro lado do portal ficaram apenas o sacerdote e seus religiosos, olhando com admiração o seu povo que se postavam em frente aos deuses.

Encarapitados sobre o portal, Trevas e Escuridão, invisíveis sob um manto que impedia que a atenção de qualquer ser se fixasse neles, seguiam com grande atenção o lento progredir da procissão, as bordas quase estáticas. Assim que o último ser passou pela abertura os dois alçaram-se alguns metros acima do portal, as bordas fremindo rápidas, emitindo um zunido de satisfação.

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