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Vivos e Mortos

Quando o mais velho disse que iria embora, aquele Jackie, que comia bolo branco e tomava chá com uma senhora de milhares de anos, parecia querer voltar. O caçula o sentia. Mãos e pés debatendo-se pelas paredes, pedindo passagem, consolo, suplicando para que o tirassem daquela escuridão claustrofóbica. Ele queria estender seus dedos e puxá-lo para fora, trazê-lo à tona novamente. Mas Jackie estava fundo, muito fundo, colado àquelas paredes pegajosas. 

    Mesmo assim, mesmo não sendo aquele Jackie, o caçula pediu que Abby deixasse o irmão passar a noite ali, sob o mesmo teto que cobre sua cabeça e lhe fez tão bem. Abby era bondosa de mais para dizer não. Então todos os Jacks dormiram no mesmo quarto: os mortos que permanecem vivos e os vivos que estão mortos. 

    Os mortos que permanecem vivos, ou seja, os irmãos Orestes, dormiram lado a lado. Um enfiado em lençóis e travesseiros no chão e outro, sobre a cama, envolto em um fino lençol azul com estrelinhas douradas e gastas. 

    “Lembra de quando a mamãe nos fazia dormir?” disse o mais velho, cauteloso como nunca. “Ela nos cobria e beijava nossas testas, logo depois de dizer que o papai matou todos os monstros do armário. Um dia você disse 'E onde estão os corpos?'. Mamãe nunca soube responder direito, sempre mudava a resposta. Acha que papai matou mesmo aqueles monstros?” o caçula apenas o ouvia, pedindo em silêncio para que parasse. Mas o silêncio não se mostrava para o mais velho, e talvez por isso ele não ouvisse. “Sinto que eles ainda estão lá, esperando”. “Esperando?” o caçula enfim falou, o mais velho gostou de ouvir aquela voz meio assustada, meio tentando manter a calma. “Sim, esperando” o mais velho sabia que ele queria saber por que os monstros dos armários estavam esperando por alguma coisa, mas se ele não dissesse com todos as letras, não ouviria uma resposta. 

    Demorou algum tempo para o caçula fazer a pergunta — com todas as letras. O mais velho quase desistiu de segurar as palavras. “O que eles esperam?” “A hora certa”, disse Jack. “A hora certa pra quê?” Jackie parecia mais Jackie naquela hora do que quando comia o bolo, ele deslizou para cima das almofadas do irmão e o encarou com os mesmos olhos de antes da partida do velho Jack. “Para sairem de lá” disse o mais velho, sentando-se mais ao lado. “Entendo” sussurrou o caçula. 

    Jackie, antes de ser Jackie, sabia muito bem sobre o medo de seu irmão mais velho. Ele temia os armários, os quartos com os produtos de limpeza, baús e caixas maiores. Tudo o que fosse grande o suficiente para prender um monstro, mas pequeno o bastante para ninguém desconfiar que havia um monstro lá dentro. Logo após o assassinato do velho Jack, esse medo transformou-se em claustrofobia: ele não entrava, em hipótese alguma, num lugar que o pudesse prender junto à um monstro. 

     Mesmo sabendo que o irmão poderia matar qualquer monstro com um simples piscar de olhos, o caçula tentava protegê-lo dessas feras com tudo o que tinha. Mesmo estando longe, mesmo deixando-o em todas aquelas estações. Essa foi uma das poucas promessas que Jackie fez, uma das muitas que ele nunca quebrou. 

    Quando o sono finalmente decaiu sobre os olhos cinzentos dos irmãos Orestes, o sol já sussurrava suas desculpas à lua, pedindo passagem com sua luz ofuscante para despertar todos os galos e galinhas da vizinhança. Mesmo cercados por essas aves barulhentas, os Jacks dormiam profundamente. Todos eles, os mortos que permanecem vivos e os vivos que estão mortos. 

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