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Capitulo 02

Cheguei em casa ás seis da tarde, minha mãe só chegaria ás onze então me deparei com a casa silenciosa e fria, subi as escadas até o banheiro para tomar um banho, assim que fechei a porta ouvi passos do lado de fora, abri novamente meio desconfiada.

- mãe?- gritei.

Mas ela não respondeu... 

- mãe?- tentei de novo – chegou mais cedo?

Mas não havia mais ninguém na casa. Respirei fundo e tranquei a porta, era só meu cérebro me pregando peças, nada com que eu devesse me preocupar.

Depois do banho fui para a sala assistir ao meu programa favorito ,America next top model, a garota que eu gostava havia sido desclassificada por isso eu não estava tão animada com a ideia de assistir, mas não havia nada melhor para se fazer naquele momento.

Um calafrio percorreu meu corpo quando de canto de olho pude ver uma sombra se movendo rapidamente, procurei meu celular mas o havia deixado no quarto. Respirei fundo novamente e me concentrei na TV. Alguns minutos se passaram quando meu celular começou a tocar, eu já estava quase pegando no sono no sofá e não pretendia subir as escadas, por isso ignorei a chamada, que tocou até cair. Fechei os olhos e troquei de posição, já estava quase dormindo quando o celular tocou novamente, dessa vez, na mesa de centro da sala, bem ao meu lado.

Dei um pulo, mas não me levantei, encarei o celular por alguns segundos em alerta máximo, na tela mostrava o nome de Lucy, então criei coragem e atendi.

- oi. - falei, a voz trêmula e baixa.

- amiga você ta bem? - Lucy perguntou notando o medo em minha voz- aconteceu alguma coisa? 

- na verdade aconteceu... – Eu estava encolhida no sofá analisando a casa, que aparentemente estava vazia.

- quer que eu vá ai? Chego em meia hora. 

A idéia de esperar meia hora fez outro calafrio percorrer meu corpo, eu não ia ficar ali sozinha por mais meia hora, não mesmo.

- Estou indo até você- falei já pegando as chaves no balcão -chego em meia hora.

* * *

Andei o mais rápido que consegui,enquanto tentava me convencer de  que havia sido um sonho, e de que o celular sempre estivera ao meu lado na mesinha de centro. Sempre fora medrosa, nada impedia que fosse apenas meu cérebro se auto sabotando.

Eu estava absorta nesses pensamentos quando abruptamente trombei em alguém.

- Me descul... - parei no meio da frase quando vi aqueles olhos negros fixados em mim.

- Você é sempre assim? Fica perdida por ai sem olhar por onde anda?

- Você também não me viu, ou teria desviado. – retruquei.

- Talvez eu quisesse tocar em você... – Ele disse e então sorriu – Há sempre uma possibilidade.

 Novamente eu quis discutir, queria chamá-lo de idiota e ir embora, mas então me lembrei do porquê estava na rua, e um calafrio percorreu meu corpo.

- Você parece preocupada. – disse, mas não havia em seus olhos qualquer sinal de preocupação verdadeira. – é quase como se tivesse visto uma assombração.

Outro calafrio percorreu meu corpo inteiro, dessa vez mais forte, e é claro que ele notou e sorriu em resposta.

- Eu preciso ir. – falei, já havia passado por ele quando me segurou pelo pulso.

- Você está sempre com pressa? – Ele deu uma piscadela – se interessa tão pouco assim que sequer consegue me olhar nos olhos?

- Não preciso olhar nos seus olhos. – Disse quase que instintivamente – Eu nem conheço você.

Tentei soltar meu pulso, mas ele era mais forte.

- Me solta!

 Ele sorriu balançando a cabeça.

- Meu nome é Daniel,  – Ele finalmente soltou meu pulso e estendeu a mão – Imagino que vá gostar do meu numero de telefone também.

Ignorei o gesto e continuei encarando-o descrente.

- Eu gostaria mais que me deixasse em paz, por favor.

Ele sorriu, sua confiança intocada.

- Posso te acompanhar para onde está indo, assim convenço você a me passar o seu telefone, o que acha?

- Não vai rolar Daniel,- comecei a andar – Nos vemos por ai.

- Você está bem pálida, não posso deixar a senhorita por ai sozinha correndo o risco de trombar mais pessoas por todo o caminho.

Dizendo isso ele começou a caminhar ao meu lado, não tive outra opção a não ser permitir, os passos dele eram confiantes, e carregava um sorriso no canto na boca, como se tivesse vencido alguma espécie de competição que criara em sua própria cabeça. Andamos em silêncio por um longo tempo.

- Não vai me dizer o que aconteceu para ficar assim tão dispersa? – ele disse por fim.

- É uma longa historia... E você também não acreditaria se eu contasse. – Suspirei.

- Você se surpreenderia com a quantidade de coisas nas quais eu acredito... Vamos, pode me dizer, não tenha medo.

E por alguma razão eu contei a ele, talvez fosse a forma protetora que ele se portava ao meu lado, ou o tom de voz calmo e que transmitia confiança. Contei a historia de forma descontraída, não queria que ele achasse que eu acreditava verdadeiramente em assombrações, ainda que eu acreditasse. Mas ele não parecia cético quando terminei de contar, pelo contrario, olhava para frente sério.

- Por isso precisei sair para dar uma volta e me acalmar, sei que é besteira, mas aquilo me assustou muito. – falei sorrindo – Agora que eu contei para você parece tão idiota, acho que é melhor eu voltar para casa.

- Acho que fez bem em sair de lá – disse seriamente – Você estava assustada, e o medo te pregaria peças a noite toda se ficasse lá.

Assenti, porque era de fato verdade. Não dissemos mais nada depois disso.

Daniel me acompanhou até a metade do caminho da casa de Lucy, pelo menos até meu celular tocar, minha mãe voltara mais cedo e portanto não havia mais razões para ficar fora de casa, e é claro que voltei sem discutir, a idéia de deixar minha mãe lá sozinha não me deixava confortável. Daniel sorriu e disse que me acompanharia até em casa também, agradeci e seguimos.

Depois de mais algum tempo em silencio Daniel olhou fixamente para mim, e aparentemente notara minha feição preocupada.

- Está com medo de voltar para lá?

Não respondi, parecia um tanto infantil ter medo de fantasmas, mas eu tinha, e não queria voltar.

- O que quer que seja, não vai ferir sua mãe, não precisa voltar agora.

- você não tem como saber. - falei cruzando os braços.

- pode acreditar... - ele sorriu- eu tenho sim como saber.

 Olhei de relance para ele, os olhos negros me fitavam com atenção, já não eram agora tão simpáticos como antes.

- Sabe quem estava na minha casa?- falei, a voz um pouco trêmula.

Ele sorriu.

- E se eu souber?

 Daniel estava zombando de mim, eu estava bem certa disso, mas eu também sabia o que tinha visto, e não podia ignorar a sensação que ele emitia.

-Então se você sabe, diga, o que estava lá? - perguntei.

Daniel deu um leve sorriso antes de responder, abriu a boca para dizer, mas seus olhos pararam em outra coisa um pouco mais a frente, e seu rosto virou pedra, onde antes havia um sorriso debochado havia agora um tom de ameaça. Ergui os olhos para ver do que se tratava, e era apenas um garoto que vinha em nossa direção, seu rosto estava fixo em Daniel também, e possuía o mesmo tom de ameaça em seus olhos.

Daniel se aproximou de mim até que nossos braços se tocassem, ele parecia prestes a voar no pescoço do tal garoto. Não me surpreendia que uma pessoa debochada e arrogante como ele possuísse muitos inimigos.

Não conversamos mais durante todo o caminho.

Cheguei em casa e liguei para Lucy, expliquei o por que de eu não ter ido até sua casa, mas não contei sobre o que havia acontecido, nem sobre ter encontrado Daniel. Ela me faria falar todos os detalhes da minha conversa com ele, e eu realmente não queria falar sobre isso, só queria parar de pensar nele, mas era cada vez mais impossível.

Nada mais de estranho aconteceu durante a noite, o que provava mais uma vez que tudo não havia passado de minha imaginação.

Naquela noite não consegui dormir, a cama estava gelada, e nada que eu fazia parecia conseguir me aquecer, fechei os olhos e por alguma razão comecei a pensar em como era minha família antes do divórcio dos meus pais, nós éramos felizes, nem mamãe nem papai precisavam trabalhar tanto, eu não sei o que aconteceu com eles, eu já tinha idade o bastante para notar se algo estivesse acontecendo, mas não estava, e em uma quinta feira de madrugada papai fez as malas e se foi para Brighton, só voltou alguns meses depois para assinar os papeis e então ele nunca mais passou por aquela porta e beijou minha testa enquanto eu fazia o dever de casa. Ele me liga todos os meses, mas não passa disso, até onde sei, ele tem uma noiva, mas nunca sequer a vi.

Me peguei chorando, e sei que chorei até pegar no sono, no entanto, a cama se aqueceu, eu já não me sentia mais tão triste, era como se houvesse uma força ali ao meu redor, que acariciava meus cabelos e me esquentava com seu corpo... Me lembro de sentir uma presença tão viva e real ali ao meu lado, que simplesmente relaxei e dormi, como um anjo dormiria.

   Abri os olhos as seis da manhã completamente acordada, ouvi mamãe se preparando para ir trabalhar, me levantei rapidamente e fui até seu quarto, ela estava de pé em frente o espelho penteando os cabelos, curtos e lisos de um tom bem claro, era impressionante como não tínhamos semelhança física alguma, e apesar de nunca ter de fato pensado sobre isso, notava agora o quão sortuda eu seria se me parecesse com ela.

- Acordou tão cedo - ela se virou para mim e me analisou atentamente - você está bem? 

- Estou - falei, assentindo com a cabeça repetidas vezes - é só que... Eu nunca dormi tão bem, estou total e completamente descansada.

- É mesmo? - ela disse sorrindo, e então beijou minha testa- isso pode ser resultado de... Deixa eu pensar, garotos?

 Era assim tão nítido? Estava escrito em minha testa que eu andava trombando um garoto por ai e que agora ele não saia da minha cabeça?

- Não tem garoto nenhum. – murmurei – Não algum que valha a pena.

- Então tem algum... Isso é bom.

Pensei em dizer que não era bom, e que apesar de ele ser um garoto nada entre nós aconteceria... Eu não tinha um tipo de garoto do qual gostava, mas certamente Daniel não fazia o meu tipo.

Encarei-a de cara fechada, ela ergueu os braços em sinal de inocência.

-  desculpe... Sou sua mãe, uma hora ou outra teremos de conversar sobre esse assunto.

- Talvez, mas não agora. – Me virei para sair do quarto – Hey, você não disse que tinha que chegar no escritório antes das sete hoje?

Ela deu um tapa na testa e começou a correr pela casa organizando as coisas para sair.

- Não acredito que vou me atrasar!!!

   Preparei o café da manhã, comemos em silêncio, eu aproveitei cada segundo de sua companhia, dez minutos depois ela foi trabalhar, me deixando sozinha com meus pensamentos.

  Nesse dia Lucy não passaria na minha casa, às quintas ela tinha de ir a loja de seus avós tomar café, a família de Lucy tinha muitos costumes juntos, e a tal loja ficava do outro lado da cidade.

    Como tinha acordado cedo resolvi arrumar meu cabelo com creme para emoldurar os cachos, quase nunca tinha tempo para fazer isso, apesar de adorar o resultado.

   Dessa vez não era preciso correr para a escola, era estranha a sensação de estar dentro do horário, mas me animou para o restante do dia.

     Tinha acabado de pegar os livros no meu armário e estava lutando com o zíper da mochila quando alguém tocou meu braço. Olhei de relance pois esperava ver Lucy ali com as sobrancelhas arqueadas fazendo alguma piada sobre eu não estar atrasada, mas minha respiração cortou quando, me deparei com o garoto que encarara Daniel na rua.

- Dominic Connor- Ele disse enquanto apertava minha mão.

- Analu. – Respondi e puxei a mão discretamente.

- Eu sei quem você é - Ele sorriu, tinha um olhar simpático, diferente do que havia visto na noite anterior- Aula de física? - Disse olhando os livros em minhas mãos

 Assenti, agora que sabia que ele e Daniel não se davam bem, eu tinha a certeza de que estávamos do mesmo lado.

- Semana passada você faltou à todas as aulas de biologia, o sr.Gretel pediu que eu te passasse a matéria que estudamos, ele mesmo poderia passar mas...

- Tudo bem por aqui? - Daniel disse colocando o braço sobre meus ombros.

- Sim, - Respondi e me afastei fazendo com que o braço dele caísse.

- Eu tenho que ir – Disse Dominic, seu rosto agora já não era mais tão simpático- Pagina 82 à 90... Fases da mitose.

 Dizendo isso ele encarou Daniel uma ultima vez e foi embora, disse para mim mesma que não me importaria muito com isso, não era difícil detestar Daniel...

Ele me acompanhou até a sala sem dizer nada, andei com passos rápidos, queria que ele ficasse para trás.

- O que está fazendo? – Perguntei já irritada – Pare de me seguir.

 Daniel sorriu, debochando de mim.

- Você é um idiota...

- Eu não estou seguindo você – ele suspirou – senhorita mau humor.

- Me chamou de quê?

Antes que eu pudesse discutir ele fez um aceno rápido e entrou na sala ao lado da minha, minhas bochechas coraram me sentindo idiota. Bufei e segui até a minha sala.

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