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Continuação por Paula

Pedi para ficar concentrado, mas já sabia que isso seria quase impossível.

Enquanto separava o material, ele andava atrás de mim como um gatinho sorrateiro, pronto para me pregar uma peça. Ele não acredita, mas já me conhece bem e sabe que nestes momentos nada me tira do prumo.

Respirei fundo, liguei o som e coloquei a música que sempre ouço para ler as cartas. Não faz parte do ritual, mas eu gosto.

Alisei o lençol onde tínhamos acabado de nos amar, e dei um pequeno sorriso. Com qualquer outra pessoa eu jamais misturaria as energias do sagrado com o profano, mas entre nós nada era proibido.

Estiquei o pano vermelho de cetim e em seguida borrifei alfazema nos quatro cantos do quarto. A alfazema limpa o ambiente e não permite que nenhuma energia ruim atrapalhe a sessão. Serve como essência de purificação e proteção.

Acendi o incenso de jasmim e deixei que o perfume invadisse o ambiente. O incenso, quando utilizado corretamente, traz equilíbrio e harmonia e assim consigo maior facilidade para atingir meus objetivos. A essência de jasmim acalma e excita ao mesmo tempo, escolha perfeita para aquele momento.

Acendi a vela branca para meu anjo da guarda e pedi permissão para começar o ritual. Sei identificar o sinal positivo. É um arrepio que sobe pela coluna e me deixa em sinal de alerta.

Voltei toda a minha atenção e reverência à Santa Sara Kali, a padroeira dos ciganos, e fiz a oração de costume. Contam que ela foi uma egípcia escrava que venceu os mares através da fé.

– Sara, mãe dos aflitos. A ti imploro proteção para o meu corpo. Luz para meus olhos enxergarem até no escuro, Luz para o meu espírito e amor para todos os meus irmãos: brancos, negros e mulatos, enfim a todos os que me cercam e hoje em especial para meu amigo Giulio Dougan, homem que amo e que desejo proteger.

Foi a presença dela, da cigana, que me fez ter certeza de estar fazendo a coisa certa. Ela me olhou firme e serena como sempre, e começou a dançar. Nós tínhamos companhia, mas só eu sabia disso. Giulio nem imaginava que ela estava ali.

Coloquei os cristais e as moedas em um canto do lenço vermelho. Os cristais têm diversas funções, ativam o amor e a caridade; as moedas simbolizam a fartura.

Acendi a cigarrilha de cravo e comecei a assoprar a fumaça em todo o material. A essência do cravo, misturado ao jasmim e alfazema, tornaram o ambiente esotérico e deixaram o quarto protegido.

Passei o perfume cigano nas mãos, pedi licença e comecei a manipular as cartas. Jamais mexo nas cartas sem esse perfume, assim como ninguém toca no meu baralho sem a minha permissão.

Sentei de pernas cruzadas e pedi para ele sentar-se na minha frente. Era a primeira vez que abria o baralho para o meu amigo. Admito que estava com o coração em saltos e minhas mãos um pouco trêmulas. Por isso, precisei me acalmar primeiro. Deixei meu pensamento seguir livre e pedi ajuda. Aos poucos fui ficando tranquila, e quando me senti pronta, comecei a embaralhar as cartas e focar meus pensamentos apenas no Giulio. Olhei para aqueles olhos verdes que conhecia tão bem e só pensei no que gostaria de ver quando começasse a virar as cartas. Meu maior desejo era que nesta viagem ele encontrasse o que estava procurando, sem dificuldades, sem sofrimento e que depois voltasse para casa; simples assim.

Infelizmente isso não estava ao meu alcance, afinal, o livre arbítrio é dele e o destino também. Se pudesse, o deixaria trancado em uma bolha segura, mas isso seria destruir a personalidade mais encantadora que já conheci.

Pedi para me dar as mãos. Quando elas me tocaram, comecei a sentir toda a energia dele. Coragem, determinação, paixão. Tudo aquilo que ele tinha em exagero dentro de si.  Nestes momentos eu ficava ainda mais sensível e pude reconhecê-lo nestas sensações.

Coloquei o baralho na sua mão esquerda, pedi para embaralhar as cartas e para pensar na viagem.

Enquanto embaralhava, pude observar com nitidez aquelas mãos com cicatrizes e marcas que contam um pouco da sua história. Eu as adorava e não deixava de lembrar que já tinham percorrido todo o meu corpo. Tive que fazer um esforço gigantesco para não misturar as coisas.

– Corte o baralho, e separe em três montes – pedi, quase sussurrando.

– Posso pensar em qualquer coisa enquanto faço isso? – Ele perguntou com aquele olhar de menino que está aprontando alguma coisa.

– Não, você sabe que não... Pense na viagem – respondi com certa impaciência. – Ah... Não tire conclusões com as cartas que virarem, nem sempre o desenho tem o significado direto com a vida real.

– Como assim?

– Por exemplo... Se sair a carta 8, é carta do Caixão de Defunto. Sempre quando ela sai no jogo as pessoas ficam assustadas por que ela lembra morte ou perda. Mas isto só acontece se ela vier seguida de cartas negativas. Em compensação, se estiver ao lado da carta 13, por exemplo, que é a carta da Inocência, pode apenas significar que uma fase de responsabilidades está chegando ao fim.

– Quer dizer que se sair um 6 e depois um 9, é por que vai rolar uma transa bem boa – disse caindo na risada.

– Não seja besta. Isto é assunto sério – respondi indignada.

– Ok... Desculpe. Não resisti à piada.

– Estou te avisando para que não se assuste caso apareça uma carta negativa e você pense em tragédias.

– Você sabe que não me assusto com coisas do além e também não vou pensar em nada, a cartomante aqui é você – afirmou.

– Pense apenas na viagem.

Ele separou e escolheu o monte da direita.

Levei um susto quando virei a primeira carta; fiz exatamente o que pedi para não fazer. O 7 é a carta da Serpente. É uma carta muito negativa que em geral significa traição. Torci para que a próxima carta mudasse as coisas, mas não adiantou, era a carta 18.

– Um cachorro deve ser coisa boa – tentou adivinhar de forma otimista.

– Bem... Na verdade não. O Cão ao lado da Serpente é sinal de que você pode sofrer uma traição de um amigo, de alguém que só aparentava lealdade e parceria.

Fui virando uma carta após a outra e os sobressaltos foram inevitáveis. As cartas viradas em seguida confirmaram essa previsão. A Cegonha da 17, a Torre da 19 e a Montanha da carta 21, finalizaram a primeira fila.

O destino estava colocando o Giulio frente a frente com seus pesadelos. Impedimentos, traições e grandes confusões. Restava torcer para que a segunda fila trouxesse mais respostas para meu amigo com sérias possibilidades de estar bem encrencado.

Ele não precisou conhecer cartomancia para sorrir comigo quando a carta 24 foi virada. O coração sob a Serpente poderia mudar para melhor toda previsão. Para melhorar um pouco, veio em seguida a Dama, carta número 29. Suspirei aliviada; ele não estará sozinho e vai se apaixonar perdidamente. Vi um grande amor, destes que marcam a vida toda. Amor sincero, cheio de desejo e carinho. Infelizmente, não seria fácil, ela também estava envolvida de alguma maneira na confusão. Talvez fosse o motivo de toda a encrenca, ou pelo menos bem próxima das causas.

Vieram os Lírios da 30, o Caminho da 22 e o Jardim da carta 20. Leveza, compromisso, paixão e belos momentos aguardavam o Giulio ao lado dessa jovem. Ela teria certa dificuldade para confiar, mas vou ajudar este cabeça dura a fazer as coisas da maneira certa.

Quando pensei que tudo ficaria bem, virei a penúltima carta, e foi a 36: a morte. Esta não tem muito para explicar. Ele vai enfrentar a perda de alguém importante. Nunca é bom sinal.

A 27 foi a última: um Envelope flutuando. Sinal de que ele seria avisado de muitas formas. Talvez as peças estivessem se encaixando agora. Já havia começado a fazer isto e certamente continuaria a ajudá-lo durante toda a viagem.

Eu precisava falar o que estava vendo e tinha que saber como dizer para ele; como colocar as palavras. Estava claro que seria uma viagem perigosa. Mais uma vez tive vontade de pedir para que desistisse, e mais uma vez voltei atrás. Vi também muito amor, paixão e aos poucos percebi que era exatamente neste amor que existia o perigo. Não teria como evitar.

As cartas não me mostraram se ele superaria as iminentes ameaças e isso me deixou aflita, era preciso fazer alguma coisa. Falsidade, mentiras e armadilhas. Ele estava em um beco sem saída, e eu também.

– Vai ou não me dizer o que está vendo aí? – Percebi certo sarcasmo na voz dele.

– Não vai ser fácil, Giulio, você vai encarar alguns desafios, mas também terá recompensas incríveis. Vou tentar te ajudar a escapar do pior, fazendo alguns rituais conhecidos – respondi, temerosa.

– Paula, quero saber do mar, você viu alguma coisa aí?

– O perigo que te aguarda não está no mar, por isso vou oferendar Oxum e não Iemanjá. O perigo está na paixão, nas relações, nas pessoas que você vai conhecer – respondi com voz triste. – Além disso, você já anda protegido pelo tridente de Exu; o mesmo de Netuno que você usa como símbolo do seu barco.

Levantei devagar e com os olhos marejados, embrulhei todo o material no pano vermelho. O incenso já tinha acabado e apaguei a vela branca. Agora só queria ficar mais tempo na cama, ao lado dele. Nosso tempo estava acabando.

Deitei também e antes de fechar os olhos precisei dizer o quanto ele era importante para mim:

– Estarei sempre ao seu lado, você nunca estará sozinho.

***

Por Giulio

Depois de a Paula ler as cartas para mim, deitamos novamente e eu fiquei pensativo no que acabara de ouvir. Morte, traição, perigo... Tantas palavras ruins ditas antes de uma viagem como esta deixariam qualquer pessoa preocupada, mesmo não acreditando em bruxarias. Pela primeira vez as premonições da Paula mexeram comigo. Nunca havia prestado atenção nelas, mas a convicção de uma pessoa boa e inteligente como ela me fizeram pensar que talvez não fosse o dono absoluto do meu futuro.

Enfim... Ela sabe que nada importa, a não ser fazer a própria história. Com otimismo ou não, eu tentaria escrever a minha da melhor forma possível. É disto que vivo: de realizar sonhos.

Esta viagem será um tributo ao mestre Paco, um marinheiro incrível e grande amigo. O homem que me ensinou o que tenho de mais valioso. Aprendi com ele que posso viver na sujeira sem me sujar e que a bondade deve ser sincera mesmo nos pequenos detalhes. Seu modo de vida cheio de aventuras e desventuras me mostrou que o dinheiro deve ser gasto com experiências e não com coisas. Estas se perdem com o tempo enquanto a história vivida fica para sempre, muito além do corpo.

O amor e a amizade que sinto pela Paula têm tudo a ver com isto. Não preciso de filosofia complexa para amar e ser amado... Apenas amo, na falta de uma palavra mais correta para o nosso romance.

Esperei ela pegar no sono, me vesti e saí silenciosamente. Evito os abraços de despedidas, pois eles passam uma ideia de fim. Não era o caso, eu só estava indo dar uma volta ao mundo.

No silêncio da madrugada, acompanhado apenas pelo ronco cadenciado da minha moto, meus pensamentos voavam de volta para a Paula. Minha amiga, companheira, amante e tantas outras relações, que nem existe um nome certo para ela. Um amor diferente e sonhado por muita gente, mas que só nós havíamos conseguido.

Começou como um simples contato profissional, e sorrateiramente transformou-se em algo maior... Bem maior. Complexo e simples ao mesmo tempo; um delicioso mistério que jamais quisemos solucionar.

Um dia percebemos a confusão em nossos sentimentos e depois de outra noite de sexo alucinado, decidimos conversar sobre o evidente. Concordamos em tudo. Não haveria ciúmes e nem mágoas. Não caberia sentimento de posse de nenhum tipo e tão pouco os incômodos dos romances tradicionais. Simplesmente aceitamos que haveria carinho, amizade e um delicioso sexo sem compromisso, sempre que quiséssemos.

Há entre nós uma cumplicidade e confiança inigualáveis. Ela sabe de toda a minha vida. Conhece aqueles momentos tão íntimos que até eu mesmo evito lembrar. Com o tempo revelei o meu lado mais sombrio, mesmo assim ela não me julgou apressadamente e sempre soube a hora e a forma certa de chamar a minha atenção.

Amo aquela garota mulher que algumas vezes é tão ingênua, e em outras mostra uma sabedoria desconcertante. Aliás, nossa intimidade é muito bem-vinda quando temos um problema de ordem romântica com nossas companhias. As ocasiões nas quais fazíamos amor e em seguida discutíamos nossas relações com alguém, eram, e ainda são, algo de surreal.

São amores tão diferentes que não cabem comparações e nem conflitos de interesses. Ambos permanecemos seguros que teremos outros amores, mas nenhum comprometerá aquilo que existe entre nós.

Desde o primeiro dia ficou claro que não seríamos marido e mulher. Jamais passou pela nossa cabeça montar uma família, assim como nunca nos imaginamos como apenas bons amigos. Eu não sei qual é a nossa relação, mas segundo ela, nos conhecemos de vidas anteriores.

Independente das razões, eu só tenho certeza de que nossas vidas sempre andarão em paralelo e muito próximas. Ninguém conseguiria mudar isso. Nossas companhias teriam que aceitar desta maneira ou não seriam as companhias ideais.

Relacionamento aberto, dizem alguns, mas estão errados, ele é fechado; diferente e só nosso. Amantes, diriam outros. Errados também, pois se estivéssemos acompanhados não fazíamos sexo, embora a cumplicidade e o carinho fossem os mesmos. Temos o amor mais justo que pode existir. Talvez ela tenha razão e seja algo transcendental.

O engraçado é que temos poucas coisas em comum. Ela foi uma adolescente típica e normal com suas fases que apavoraram a família, mas que nada mais foram do que gritos de liberdade. Já eu, conquistei a minha independência ainda bem jovem e tive poucas chances de ser um adolescente comum. 

Outra diferença gritante entre nós é que ela é mística enquanto eu sou cético de carteirinha. Não acredito em nada que não morra com um tiro na cabeça. Para ser sincero, me divirto com as crendices e bruxarias dela. Ela tem seus gurus e guias espirituais que não me incomodam, então convivo muito bem com este lado tão diferente dela. Não tenho fé em nada disso, mas tenho fé nela. É o que nos basta.

Ela não pratica esporte radical algum, não dirige carros e nem moto, não se interessa por aviação e tão pouco por barcos. Embora jornalista e boa redatora, gostamos de assuntos diferentes na literatura. A organização dela é invejável, e é um alívio tê-la por perto arrumando a minha desorganização.

O único ponto forte em comum é a música. Ela havia sido locutora e fazia a programação musical da rádio. Sempre fui seu fã. Parecia que ela adivinhava as músicas que eu precisava ouvir.

Atração física também não explica tamanha afinidade. Ela é linda e sempre me achou atraente também, mas tivemos muitas outras pessoas tão atraentes ou mais do que nós mesmos. Seus cabelos claros e cacheados molduram um rosto que evidencia sua ascendência europeia. Os olhos verdes e o corpo muito bem proporcional eram os primeiros atributos a chamar a atenção.

Muitos rapazes a assediavam, e quanto a isso nós tínhamos um ritual engraçado. Emitíamos diferentes impressões sobre as vítimas. Invariavelmente eu os criticava e arranjava defeitos, enquanto ela elogiava e achava qualidades nas minhas pretendentes. Com o desenrolar da relação, passávamos a ver a companhia do outro com olhos realistas e podíamos dar conselhos importantes e sábios.

A única pessoa que nos compreende bem é meu fiel parceiro Claudio. O garoto que tem o status de irmão mais novo e logo se transformou em braço direito nos negócios, passou a fazer parte de um trio muito unido. Por ter visto a minha relação com a Paula desde o início, e ter ficado amigo dela também, acha natural a forma exótica do nosso relacionamento. Seu modo de vida, também errante, e um grande histórico de aventuras juntos, fez o rapaz merecer minha confiança irrestrita. Aliás, para dar a ideia da minha confiança nele, é a única pessoa na qual confio na dobragem do meu paraquedas. Sem a Paula e o Claudio ao meu lado, não sou nada.

Desci a serra com a minha moto Harley Davidson; a grande companheira de aventuras até então. Sabia que eu sentiria falta do ar frio atingindo meu rosto e o perfume do nevoeiro. O cheiro da serra é algo único, principalmente quando estamos de motocicleta. Inclusive foi nesta mesma moto que aproveitei milhares de quilômetros de sensações inesquecíveis. Eu e a Harley sabíamos dançar juntos e aos poucos a imprudência foi tomando conta. A cada oportunidade fazia as curvas cada vez mais rápidas; o joelho passava a centímetros do asfalto traiçoeiro. A velocidade aumentava e a inclinação também.

Logo passei a me perguntar: que tipo de desafio é esse? Por que arriscar o pescoço logo agora? O medo era a resposta. Meu instinto era enfrentá-lo e desafiá-lo. O medo da tão esperada partida havia chegado e aquilo era como levar um tapa na cara do destino. Uma provocação da qual eu imediatamente aceitava e dobrava a aposta.

Racionalizei esta emoção estúpida e aliviei a mão do acelerador. Mais do que nunca o cérebro devia tomar conta do coração e voltar para as atitudes de segurança que me permitem continuar com estas aventuras sem consequências ruins.

O restante do percurso foi seguido devagar e sentindo o vento no rosto. O último vento com cheiro de asfalto, pois logo sentiria apenas o aroma da maresia.

***

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