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Diário de uma Han-yõ Youkai
Srta. Arthemis
Uma companhia inesperada...

            Os primeiros raios de sol da manhã irromperam por entre as cortinas brancas me acordando de um sono sem sonhos, sentei-me na cama e estiquei os braços alongando os músculos das costas, uma longa cascata de fios negros desprendeu-se do elástico, mas ignorei. Depois de alguns minutos ainda naquela posição, levantei-me e segui para o banheiro adjunto ao quarto.

Olhei-me no grande espelho de corpo inteiro que ficava na porta do box e fitei minha aparência, resmungando internamente como parecia mais cansada do que quando fui dormir ontem à noite. Não me atentei muito a isto, optei por descansar meus pensamentos em um banho morno, e ao terminar, me coloquei de frente ao espelho novamente. Precisava fazer meu ritual matutino.

Respirei fundo, tentando não tremer a mão enquanto levava a lente de contato ao olho esquerdo onde a heterocromia despontava. A parte acinzentada dos meus cabelos era fácil de esconder, bastava tingi-lo de preto. Contudo, meus olhos possuíam colorações diferentes e o lado cinzento precisava ser coberto, infelizmente não era possível mudá-lo permanentemente.

Retornei ao quarto em passos lentos, sem animo algum para ir ao colégio – o quarto que me matriculo em menos de um ano – e sem muita escolha, pesquei um casaco do cabide e o vesti por cima da camiseta branca do uniforme, combinando com a saia plissada azul marinho. Como o inverno se aproxima, não há tanto problema em usar um casaco de capuz, mas estou o usando por outro motivo: Para me esconder.

Esconder mais especificamente as minhas orelhas felpudas e cinzentas como as de uma raposa. E este é o motivo para tantas mudanças, não sou totalmente humana e sempre que alguém descobre meu segredo preciso ir embora, o que acontece constantemente.

"– Tente agir normalmente! " Falei para mim mesma, como um mantra que preciso repetir todos os dias desde que comecei a me virar por conta própria, e sai do apartamento recém-alugado, descendo pelas escadas tortuosas que levavam a avenida. Este seria meu “primeiro” dia de aula, mesmo já estando dentro de um novo semestre, e tentei ser otimista e me convencer de que dessa vez, daria certo, mesmo com as lembranças da última vez que tentei me deixando arrepiada.

Enquanto caminhava pela calçada, as lembranças retornaram rapidamente como um sinal de agouro. Só me dei conta de que estava apertando a barra da saia quando passei por uma senhorinha que me olhou meio torto, creio que estivesse mostrando a pele. Idosos são bem rigorosos quanto a esse tipo de comportamento, ainda mais vindo de uma jovem.

Lembrei-me de Sophia, aquela desgraçada que me infernizou a vida desde que nos vimos pela primeira vez e acabou se tornando o motivo para que eu me mudasse para esse novo estado, fugindo mais uma vez. Às vezes, sinto que não há um lugar no mundo para pessoas como eu.

Na manhã fatídica de nosso último encontro, encontrava-me no fundo da sala, tentando não chamar atenção como sempre. Não tinha amigos, e ela sabia disso. Logo, quando se sentou sobre minha carteira, imediatamente senti que me traria problemas, tentei ignorá-la, focando minha atenção no livro que lia. Mas, senti meu sangue ferver quando este foi arrancado de minhas mãos bruscamente, ergui os olhos em sua direção e pedi o mais educadamente possível que me devolvesse.

Aquele era realmente um péssimo dia, passara a noite acordada com insônia, estava sendo muito difícil lidar com todo o peso sobre minhas costas, e não conseguia controlar minhas emoções que mais pareciam um turbilhão de caos.

" – Está velhinho, né?" Ela debochava jogando o livro de uma mão para a outra, e em um momento de descuido, o segurou pela capa antiga que se rasgou rapidamente.

Sophia havia acabado de destruir a única coisa que eu ainda possuía minha mãe, bem diante dos meus olhos. Em poucos segundos, meus fios tingidos de preto levantam-se descolorindo gradualmente e minha aura gelada pesou o ar a nossa volta, ela me olhava paralisada de medo, peguei meu pertence de suas mãos imundas com tamanha força que a derrubei no chão. Depois disso, tudo virou uma bagunça, gritos chamavam-me de bruxa acompanhados de uma correria idiota que instalou-se na sala de aula.

Bruxa? Francamente, sou pior que isso...

No oriente, durante muitos séculos, meus ancestrais foram cultuados como deuses advindos da natureza e adorados por nossas capacidades sobre humanas, e menos sendo chamados de Youkais, ou demônios, sua obediência e medo sempre os manteve distantes de nós. Assim, podíamos coexistir sem a necessidade grandes conflitos, e os poucos, as relações entre humanos e Youkais, tornou-se ainda mais estreitas possibilitando a existências de seres como eu, mestiços que possuíam ambas as características. Há muito tempo, fui afastada da minha mãe que era uma Kitsune, uma raposa demônio que se envolveu com um humano, me gerando como fruto daquela relação.

Contudo, no decorrer dos anos, o sobrenatural tornou-se um tabu entre os humanos, e qualquer pessoa que afirmasse ter visto algum demônio ou espirito passou a ser considerado louco e desacreditado, fazendo com que em momentos como o que me descuidei entre humanos tornasse um grande caos pois, eu, um demônio deveria ser apenas ficção.

E em horas depois daquele alvoroço, todos estavam caídos no chão por falta do ar que ficara escasso, a crise seria considerada pelos professores um pequeno surto coletivo e a estudante matriculada como Aili, o nome que usei, desapareceria misteriosamente dos registros. E quanto a mim, estaria correndo aos prantos na rua em meio ao temporal que se instalava literalmente sobre minha cabeça. Eram lembranças ruins que me faziam sempre reter com todo esforço qualquer parte do meu emocional e me afastasse ainda mais de outros seres humanos.

Balancei a cabeça tentando afastar aquelas cenas da minha mente e me atentei ao semáforo que se fechava a minha frente, por pouco não sendo atropelada por um carro em alta velocidade. Antes que percebesse, um pequeno grupo de pessoas formou-se ao meu lado, esperando o sinal abrir enquanto conversavam animadas sobre suas vidas e puxei mais o capuz do casaco e escondi o rosto, evitando qualquer possível contato visual.

Nos últimos anos tenho vivido a base de rigorosas regras alto impostas que me possibilitam manter a estabilidade e não matar ninguém por acidente, ou por desejo mesmo. Evito encarar as pessoas diretamente, ou falar com elas, e acima de tudo, tento ao máximo não perder o controle.

Eu não possuo lugar nenhum entre os dois mundos, sou a prole de uma relação que nunca deveria ter acontecido. Há algumas regras que simplesmente não deviam ser quebradas, a profanação da harmonia resulta em anomalias, como eu.

Enquanto andava pela ponte de pedras cinzentas, fitei pequeno bosque que ainda se mantinha ao redor do lago de águas cristalinas que passava por sob a ponte, aproximei-me da borda e aspirei o cheiro de ar puro. Contudo, meu momento de tranquilidade foi interrompido por um movimento estranho que acabei capturando pela minha visão periférica, algo que, ao ser notado, correu por entre as árvores. Uma péssima ideia.

Instintivamente acabei saltando a borda da ponte e corri atrás dele em um pequeno jogo de perseguição que aos poucos, atiçava meus instintos mais selvagens. Corremos por entre as árvores em alta velocidade e finalmente o alcancei, enroscando minhas mãos ao seu redor. Rolamos um pequeno desfiladeiro e cai sentada no chão de pedregulhos, eu ainda o “protegido” com meus braços, e as roupas amorteceram o impacto do meu corpo no chão.

- Calma! Não vou te devorar! Sussurrei acariciando sua cabeça tentando acalmá-lo, ele estava trêmulo, mas aos poucos estava acalmando à medida que ouvia minha voz.

- Onde está sua família? Perguntei olhando para seus olhos assustados. Era apenas um filhote de Kappa, assustado e sozinho.

Pesquei uma garrafinha de água na mochila, que milagrosamente ainda estava em meu ombro, e enchi a tigelinha sobre sua cabeça para que não morresse desidratado.

-Kitsune... Kitsune... - Ele repetia ainda tremendo assustado e tremendo, seus olhos grandes olhando para todos os lados com pavor, estava com medo e não era só de mim.

- Calma, não irei machucá-lo! Sorri fazendo um esforço para tranquilizá-lo. - Onde está sua família?

- Morreu... minha mãe era boa, ensinou a não matar... comíamos peixes! Ele desatou a falar engasgando-se num choro desesperado que partiu meu coração.

- Ah... eu sinto muito! Falei abraçando-o instintivamente, pressionando seu corpo ainda pequeno contra o meu. – De quem você estava fugindo?

- Delícia! Ouvi uma voz assustadora dizer isso, respondendo minha pergunta. Levantei a cabeça e vi um Youkai que nunca havia visto antes. Era exageradamente alto e corpulento, parecendo uma espécie de ogro que nos olhava sadicamente enquanto passava a língua pelos lábios.

- Fica longe! Rosnei levantando algumas pedras ao nosso redor, assim como meus cabelos enviando sinais de perigo. Com sorte, conseguiria afastá-lo sem precisar entrar num combate.

Ele ignorou meu aviso e continuou se aproximando, mesmo após enchê-lo de pedradas, os machucados causados por elas apenas o deixaram mais irritado o que atiçou meus instintos. Minha calda eriçou-se e minhas presas cresceram, rosnei novamente, dessa vez não era um aviso, estava séria de minhas intenções.

Assustado ele ajoelhou-se no chão de pedras implorando por perdão e depois correu para dentro da floresta sumindo do meu campo de visão. Não tenho certeza se foi realmente minha ação que o assustou, mas tenho certeza que poucos seres sobrenaturais tem a coragem de ir de encontra a uma Kitsune, mesmo que inexperiente como eu. 

- Salvou-me! Muito obrigada! O pequeno Kappa me agradeceu curvando-se educadamente e a água no topo de sua cabeça escorreu, deixando-o zonzo e molinho. Sorri colocando mais água e dei-lhe o sanduíche que seria meu lanche, não iria para o colégio naquele estado mesmo.

Levantei-me e b**e as palmas das mãos na saia tentando tirar a areia, todo meu uniforme estava sujo e rasgado em alguns pontos. Suspirei resignada me perguntando se ainda possuía linha azul em casa e voltei pelo mesmo caminho em que vim, mas antes enfiei o pequeno Kappa na bolsa. Deixar um youkai filhote sozinho naquela floresta significaria sua morte, ainda mais com aquela coisa apenas esperando uma vítima desavisada para devorar.

- Mas... Não posso sair! Ele tentou protestar, mas calou-se ao ver algumas pessoas passarem por nós e encolheu-se até o fundo da bolsa.

A porta do apartamento antigo rangeu ao ser aberta, a tranquei e tirei o Kappa de dentro da mochila e fui para o quarto me trocar, tomei banho e voltei para a sala. Dei-lhe banho também e retornamos à cozinha fazer algo para comermos.

" –Será que tenho peixes?" Pensei enquanto revirava a geladeira, procurando algo para comermos, o fitei de soslaio e percebi seus olhos curiosos, tentando assimilar aquele novo ambiente.

            Provavelmente era a primeira vez que saia de seu ambiente natural desde seu nascimento, mas com a mãe morta seria impossível que se desenvolvesse por conta própria em um ambiente tão hostil quanto um bosque ligado ao campo sobrenatural. Provavelmente aquela coisa não pertence a essa dimensão, está procurando alimento, e posso imaginar que humanos desavisados estejam em seu cardápio.

Fiz uma refeição simples, apenas para nós dois e depois de comermos, me sentei a sua frente e o encarei, imaginando o que faria a partir daquele momento. Impulsivamente havia trazido um Youkai diferente de mim para casa, e agora com a cabeça mais fria, percebi que não sabia quais necessidades ele tinha.

- Que é você? O pequeno Kappa questionou inclinando a cabeça em confusão total, aparentemente não compreendia o porquê da minha mudança de aparência.

- Sou uma Han-yõ Youkai! Sussurrei olhando para minhas mãos sobre o colo. - Minha mãe era uma Kitsune... E bom, estou tentando me adaptar a essa nova condição...

- Mas você vive com humanos? Ele continuou estranhando.

- Eu tento, mas logo eles descobrem! Expliquei com um riso amarelo, olhei para o lado com desanimo e me permiti resmungar um pouco. Não havia muito o que pudesse fazer.

- Parece comigo! Ele murmurou enfiando um peixe inteiro na boca, parecendo resignado com sua situação.

- Verdade! Não temos para onde ir! Concordei sorrindo de olhos fechados, sentindo as dores surgir após a adrenalina passar. - E eu preciso ir trabalhar...

- Onde trabalha?

- Em um restaurante...lavo os pratos e tenho um pouco de dinheiro para viver. – Expliquei erguendo o corpo com um pouco de esforço, pegando um boné e outro casaco.

- Entendo... então eu fico aqui, espero você chegar! Ele murmurou e eu sorri me despedindo enquanto seguia até a porta. 

Quando retornei horas depois, o cheiro do detergente ainda entorpecia meus sentidos, caminhei pelo apartamento e encontrei o Kappa dormindo estirado no chão do banheiro onde um pouco de água se juntava próximo ao ralo, sorri pegando-o com carinho e levei para o quarto, me certificando antes de que não estava desidratado.

- Bem vinda de volta... - Ele murmurou acordando ainda sonolento.

- Obrigada! Sorri bocejando cansada enquanto o aninhava ao meu lado no colchão. – Agora durma, você é um filhote, precisa descansar bem!

Quem diria? Estive sozinha por quatro anos e de repente, uma companhia inesperada resolveu surgir em minha vida.

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